Funâmbulo

Um passadiço invade o mar e vai até lá longe. Pelo caminho há pescadores de isco na água.
Desejo percorrer-lhe cada canto, acompanhá-lo até ao fim, caminhar morosamente, chegar à raia e saltar.
No limite, onde o cimento se perde com o horizonte, a imagem da terra é pequena e surda.
Que a vida se sustenha o quanto pode, enquanto caio, que a alma não tenha tempo e salte a seguir. Quero suspender a vida por dois segundos e dar a volta ao mundo.
Qual é o risco? Talvez haja rocha invisível dali, por baixo do ondular inquieto daquela água. Que o isco chame animal que me tenha pelo isco. Ou o isco, ele próprio, também invisível, me agarre como a um peixe.
Aos pés, uma inscrição, ´Proibido saltar!´.

João Cravo Cardoso, 2015